A Confiança em Deus – Pe. Matheus Pigozzo

O Pe. Matheus Pigozzo propõe uma hermenêutica bastante interessante sobre um texto bíblico vetero-testamentário. Trata-se do trecho que aborda a fé do Pai Abraão.

Como de costume, o texto é simples, objetivo e kerigmático. Aproveitem!


A Confiança em Deus

Uma reflexão sobre a fé de Abraão em Gn 22,1-13

 

Este trecho do livro do Gêneses, por sua densidade e força, é paradigmático e nos desafia ainda hoje. A confiança em Deus e não em nós mesmos parece ser um dos temas centrais da História da Salvação. No Éden, ao iniciar nosso caminho, percebe-se que o que faltou aos primeiros pais foi a confiança… A serpente, com a frase “Sereis como deuses” (Cf. Gn3,5), instigou o homem a desconfiar da bondade de Deus, de suas leis e amor; fez com que pensasse que a proibição de comer o fruto fosse algo que os privasse de sua autonomia e não o cuidado do Criador para que não entrassem em um caminho escuro. Também a desconfiança se fez presente nos mestres da lei e nos fariseus do tempo histórico de Jesus, sua sede de autonomia e poder, seu fechamento em si e seu apego as suas próprias forças fez com que não confiassem que Deus pudesse ter-se feito homem e ter escondido sua glória na humanidade de Jesus.

A confiança de Abraão é o desafio do caminho cristão. O texto começa dizendo “Deus provou Abraão” (Cf. Gn22,1). Sim, muitas vezes só conseguimos provar nossa fé quando nosso chão é tirado, quando o que vemos e podemos tocar no momento parece ser antecedentes do contrário ao que a fé nos diz vir à frente. Deus pediu a Abraão seu filho, seu filho único. Para Abraão, Isaac era mais valioso que a si mesmo; seu afeto, sua motivação, seu orgulho estavam condensados no seu único filho. Deus parecia pedir mais do que seu coração humano poderia dar…

No dia seguinte, após refletir sobre o que Deus lhe pedia, após enfrentar a tentação do começo de tudo que fazia desconfiar do pedido do Senhor, que fazia ver Deus como inimigo e Soberano tirânico, diz a Palavra – “Abraão selou o jumento…” (Cf. Gn22,3). Abraão confiou que o pedido que lhe foi feito, por ter vindo de Deus, era o que ele deveria fazer. Parecia irracional, parecia controlar sua liberdade, parecia ser o que o conduziria a uma vida amarga. Ele selou o jumento, mesmo vendo seus contemporâneos dos povos vizinhos em suas aparentes vidas tranquilas… Conseguiu não trocar a verdade, o verdadeiro Deus, o Deus que falou com Ele, que o escolheu, que o amou, que o abençoou, pela vida cômoda, porém falsa da idolatria circunvizinha.

Ao chegar ao pé do monte, Abraão diz aos servos “Ficai (…) vamos até lá mais adiante para adorar…” (Cf. Gn22,5). Abraão estava indo para seu culto a Deus… O sacrifício não era de Isaac; era seu. Ele sacrificou, pela obediência, a sua vontade, a sua arrogância de enfrentar, a sua petulância de dizer o que era o melhor e acolheu o que Deus determinou, mesmo indo contra seus cálculos, contra seus impulsos, contra suas emoções… Por isso ele adorou – reconheceu-se criatura, reconheceu-se servo e não legislador, e assim se fez sacrifício vivo em reparação ao pecado primeiro de orgulho e desconfiança.

Ao subir o monte, seu filho pergunta onde está a ovelha para ser oferecida(Cf. Gn22,7)… Parecia vir à tona na doce fala de Isaac a angústia de sua humanidade vacilante e ali também as vozes que viriam possivelmente lhe condenar – “Você é louco! Que Deus é esse que te pede isso?”; “Perdeu o juízo, qual o motivo de tanta radicalidade?”; “Será que Ele pediu isso mesmo ou foi uma invenção?”. A resposta de Abraão veio da força da fé e não de seus questionamentos – “Deus providenciará” (Cf. Gn22,8). Deus governa a história, confio que Ele tem o poder! Sei que o que Ele manda e o que me pede é melhor do que o que eu calculei para mim! Ele é o centro e não eu! Ele me ama e só me dá o que me faz crescer em seu amor.

Na hora derradeira, no momento no qual ele pensava que não tinha mais jeito, o Senhor manda seu anjo que diz – “agora sei que temes o Senhor” (Cf. Gn22,12). Agora? Sim, agora que o Senhor pediu algo que lhe custava, pediu sua fidelidade no momento que só escutava a voz e não tinha a visão do que viria, agora que pediu algo que estava além de sua programação e seus esquemas… O sair da sua terra, o seguir a rota proposta, o acreditar que o Senhor era o Deus único foram passos, mas não tinha ainda tocado no fundo, não tinha feito ainda Abraão ter a liberdade de deixar o controle de sua vida nas mãos de Deus.

Deus nunca pedirá o irracional. Deus não pedia a Abraão Isaac, Ele pedia sua obediência às suas ordens, seu temor, sua confiança em seus pedidos. Algumas situações em nossa vida nos fazem pensar que as ordens de Deus e seus mandamentos são pesados, irracionais e impossíveis, mas isso sinaliza a nossa limitação de ver o adiante, de confiar que Ele providenciará tudo para vivermos seus preceitos, pois só nos dá o que é salutar para nossa alma.

Aproveitemos as situações de nossa vida, obedeçamos ao Senhor, para termos o amor e o temor d´Ele em nosso coração. O que adiantava Abraão ter se fechado em seu relativismo, desconfiança, comodismo pra guardar Isaac se perdesse a amizade com Deus que o havia tirado do marasmo, da mesmice e da falsidade? O que adianta lutarmos contra Deus pra guardar nossos Isaacs e perdermos a paz no coração e a eternidade feliz com Ele?

Peçamos a fé e confiança de Abraão para, a cada dia, selarmos nosso jumento seguindo o caminho de Deus aqui, a fim de um dia o adorarmos eternamente no céu.

Pe. Matheus de Barros Pigozzo
(Arquidiocese de Niterói-RJ)

Robson Oliveira

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