A HISTÓRIA DA FAMÍLIA – Por Chesterton (tradução ©Prof. Carlos Ramalhete)

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O interior de um lar tem uma cor própria, tão evidente quanto o exterior da casa. Esta cor é uma mistura, e se um tom prevalecer será geralmente o da mulher da casa. Mas, como todas as cores compostas, ela é uma cor à parte, tão distinta quanto o verde é distinto do azul e do amarelo. Todo casamento é uma espécie de equilíbrio dinâmico, e o acordo a que se chega, em cada caso, é tão único quanto qualquer excentricidade.

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 Comentário: Em anos passados, antes do advento da internet, levados pelas correntes ideológicas contrárias a fé católica, poderíamos até encontrar dificuldade de acesso às informações. Claro que não pode ser desculpa, afinal muitos recorreram às bibliotecas e buscaram clássicos para uma leitura edificante. Havia ainda outros fenômenos sociais, dentre eles o entrismo de cunho marxista gramsciano que tomou conta não só dos nossos formadores acadêmicos como também dos formadores espirituais. Ainda hoje vemos claramente padres, freis ou freiras com mentes impregnadas da famigerada Teologia da Libertação. Hoje, digo que não podemos mais ser bossais, não podemos mais continuar acreditando nas falácias desta esquerda mentirosa que tenta tomar conta de todos os espaços, digo, escolas, instituições, associações, política, igreja e nossas famílias. Ícones surgem entre os religiosos, professores, jornalistas, profisionais das diversas áreas, e disponibilizam uma gama jamais vista de materais ao alcance de todos via internet. Pe. Paulo Ricardo é um exemplo, além de ser um dos arautos denunciadores do Marxismo Cultural, oferece cursos inteiros de catequese em seu site (http://padrepauloricardo.org/). Ergamos a cabeça amigos, ousemos e voltemos aos pensadores que até hoje impregnam nossas vidas de pensamentos coerentes não só com a fé, mas também com a razão que clama nos inconscientes pelas correntes da lei natural, e não por orquestradas ideologias nocivas à vida e à família. Venho trazer para vocês, o trabalho de um desses ícones, o Prof. Carlos Ramalhete. Em seu blog, A hora de São Jerônimo, ele disponibiliza materiais diversos de grande importância, e em especial a tradução de um livro do grande Gilbert Keith Chesterton (1874-1936), um dos maiores pensadores católicos do século XX que infelizmente, por diversos motivos, desconhecido  em nosso país. Como pode um texto de cerca de um século nos tocar tanto? Exatamente porque, além de criticar o mundo capitalista que usurpa os pais dos seus filhos ou os filhos dos seus pais, apresenta a família como uma instituição imutável que invoca o “natural” e não o “forçado”. Aproveitem a leitura:

 A História da Família
Autor: G.K. Chesterton
Tradução: ©Prof. Carlos Ramalhete

A mais antiga das instituições humanas tem uma autoridade que pode parecer tão selvagem quanto a anarquia. Ela é a única, dentre todas estas instituições, a começar com uma atração espontânea, e de que se pode dizer que é baseada no amor, não no medo. A tentativa de compará-la com as instituições coercitivas que vêm complicando a história recente levou a uma infinita falta de lógica nos últimos tempos.

Trata-se de algo tão único quanto universal. Não há nada, em nenhuma outra relação social, que seja sequer paralelo à atração mútua dos sexos, e é ao perder de vista este fato simples que o mundo moderno caiu em centenas de enganos.

A idéia de uma revolta geral das mulheres contra os homens foi proclamada com bandeiras e passeatas, como se fosse uma revolta de vassalos contra seus senhores, de negros contra negreiros, de poloneses contra prussianos ou de irlandeses contra ingleses; todos agiam como se acreditassem na nação fabulosa das amazonas. A ideia, igualmente filosófica, de uma revolta geral dos homens contra as mulheres foi proposta em forma de romance por Sir Walter Besant, e como livro de sociologia pelo Sr. Belfort Bax.

Ao primeiro toque desta verdade de uma atração aborígene, contudo, todas estas comparações desabam e se vê como são cômicas. Um prussiano não sente, logo de cara, que ele só será feliz quando puder passar os dias e as noites ao lado de um polonês. Um inglês não acha que a casa parece vazia e triste a não ser que haja um irlandês lá dentro. Um escravagista não sonha, na sua juventude romântica, com a beleza perfeita de um africano. Um magnata das ferrovias raramente escreve poemas sobre o fascínio particular de um carregador de estação de trem.

Todas estas outras revoltas, contra todas estas outras relações, são razoáveis, para não dizer inevitáveis, por serem relações originalmente baseadas na força ou no interesse próprio. A força consegue abolir o que a força consegue estabelecer; o interesse próprio pode rescindir um contrato que foi ditado pelo interesse próprio. O amor de um homem e de uma mulher, contudo, não é uma instituição que posssa ser abolida ou um contrato que possa ser rescindido. É algo mais antigo que todas as instituições e contratos, algo que certamente irá continuar quando eles não mais existirem.

Todas as outras revoltas são reais, porque persiste a possibilidade de que as coisas possam ser destruídas, ou ao menos divididas. É possível abolir os capitalistas, mas não se pode abolir os homens. Os prussianos podem sair da Polônia, ou os negros voltar à África, mas um homem e uma mulher vão sempre permanecer juntos, de um jeito ou de outro, e devem aprender a tolerar-se mutuamente de alguma maneira.

Trata-se de uma verdade muito simples, e talvez por isso hoje em dia ela passe desapercebida. A verdade que dela se depreende é igualmente óbvia. Não se discute por quê a natureza criou esta atração; na verdade, seria mais inteligente perguntar-se por quê Deus a criou, pois a natureza não teria propósito sem Deus por trás dela. Falar de um propósito na natureza é tentar, em vão, usar o feminismo para evitar o antromorfismo. É crer numa deusa por se ser cético demais para acreditar em um deus.

Esta controvérsia, contudo, pode ser deixada de lado nesta discussão, se nos contentarmos em dizer que o valor vital que se encontra, afinal, nesta atração é, evidentemente,a renovação da raça humana.

A criança é uma explicação do pai e da mãe, e o fato de ela ser uma criança humana é uma explicação dos antigos laços humanos que ligam o pai e a mãe. Quanto mais humana – ou seja, menos bestial – for a criança, mais legítimos e duradouros serão estes laços. Assim, quaisquer progressos na cultura ou na ciência, longe de afrouxar estes laços, irão logicamente estreitá-los. Quanto mais houver para a criança aprender, mais tempo terá ela de passar na escola natural onde os aprende, e mais deve tardar a dissolução da parceria de seus mestres.

Esta verdade elementar está hoje escondida sob uma multidão de intermediários, agindo em função direta ou indireta da falácia elementar de que tratarei em seguida. Falo da posição primária do grupo humano, tal como ele persistiu ao longo de eras, enquanto as civilizações ascendiam e decaim; frequentemente incapaz de delegar o que quer que fosse do seu trabalho, e sempre incapaz de delegá-lo por inteiro. Nisto, repito, sempre será necessário que os dois mestres fiquem juntos, enquanto eles tiverem algo a ensinar.

Um bicho marinho qualquer, que simplesmente se desliga da cria e flutua para longe, poderia flutuar até um tribunal de divórcio submarino ou um clube de amor livre para peixes. O bicho marinho pode fazê-lo precisamente porque a sua cria não precisa fazer nada, porque ela não tem que aprender a dançar polca ou recitar a tabuada. Estou enumerando truísmos, mas truísmos verdadeiros; as verdades sempre acabam voltando à cena. Afinal, o emaranhado de substitutos semi-oficiais da verdade que agora encontramos não é grande o bastante para tapar o buraco. Se as pessoas não conseguem cuidar da própria vida, simplesmente não pode fazer sentido pagá-las para cuidar da vida dos outros, menos ainda para cuidar dos bebês dos outros. Isso é simplesmente jogar fora um poder natural para pagar por um poder artificial, como quem rega uma planta com uma mangueira enquanto a protege da chuva com uma sombrinha.

Tudo isso, na verdade, está baseado em uma ilusão plutocrática de uma oferta infinita de serviçais. Sempre que aparece um sistema novo qualquer que seja apresentado como “uma carreira feminina”, o que está realmente sendo proposto é transformar um número infinito de mulheres em serviçais da plutocracia ou da burocracia. Em última instância, estamos argumentando que uma mulher não deveria ser mãe do próprio filho, sim babá do filho dos outros. Isto, contudo, não tem como funcionar nem no papel. Não é possível que cada um lave a roupa do próximo, muito menos os babadores. No fim das contas, as únicas pessoas que conseguem cuidar, ou mesmo de quem se possa dizer que cuidem, individualmente, de cada criança individual são os seus pais individuais. A expressão, tal como é aplicada aos que lidam com multidões cambiantes de criancinhas, é apenas uma graciosa e legítima figura de linguagem.

Este triângulo de lugares-comuns composto de pai, mãe e filho é indestrutível, e destrói qualquer civilização que o menospreze. A maior parte dos reformadores modernos é apenas um amontoado de céticos vazios, que não têm base alguma sobre a qual reconstruir; seria bom se estes reformadores se dessem conta de que há algo que eles não conseguem reformar.

É possível derrubar os poderosos de seus tronos. É possível virar o mundo de ponta-cabeça, e é perfeitamente defensável que esta seja a posição certa para ele. Contudo, é impossível criar um mundo em que o bebê carrega a mamãe. Não se pode criar um mundo em que a mãe não tenha autoridade sobre o bebê. É possível perder tempo argumentando, dando aos bebês o direito de voto ou proclamando uma república infantil. É até mesmo possível dizer, como o fez outro dia um pedagogo, que as crianças pequenas deveriam “criticar, questionar a autoridade e suspender seu julgamento”. Não sei por que ele não continuou, dizendo que elas deveriam trabalhar para ganhar a vida, pagar imposto de renda e morrer pela Pátria no campo de batalha, já que evidentemente o que está sendo proposto é que as crianças não tenham infância.

Mas, se isso parecer divertido, é possível organizar um “governo representativo” entre os menininhos e menininhas e dizer a eles que levem o mais a sério que puder as suas responsabilidades legais e constitucionais. Resumindo, é perfeitamente possível ser louco, mas é impossível fazer sentido. Não se pode realmente levar às raízes este princípio e aplicá-lo à mamãe e ao bebê. Não é possível aplicar a teoria ao mais simples e mais prático de todos os casos. Ninguém é louco a este ponto.

Este núcleo de autoridade natural sempre existiu em meio a autoridades mais artificiais. Ele sempre foi visto como algo literalmente individual, ou seja, como algo absoluto, que não pode ser dividido. Um bebê não seria sequer um bebê sem a mãe; seria outra coisa, mais provavelmente um cadáver. Isto sempre foi reconhecido como algo que tem uma relação peculiar com o governo, simplesmente por ser uma das coisas que não foram feitas pelo governo e que poderia, em certa medida, vir a existir sem o apoio do governo. Realmente, trata-se de algo tão evidente que nenhuma defesa é possível ou necessária. Pois a defesa que pode ser feita é que não há nada comparável, e nos poderes e instituições mais elaborados, que são seus inferiores, não encontraremos mais que leves paralelos.

Assim, a única maneira de transmitir esta idéia é comparando-a com uma nação, ainda que, comparadas a ela, as divisões nacionais sejam tão modernas e tão formais quanto os hinos nacionais. É por isso que eu uso frequentemente a metáfora de uma cidade, ainda que o citadino, em comparação, seja uma novidade tão recente quanto o funcionário público municipal. Basta notar aqui que todos sabem por intuição, e admitem por implicação, que uma família é um fato, algo sólido, dotado de cor e caráter como uma nação.
Esta verdade é comprovada nas experiências mais cotidianas e mais modernas. Um homem vai dizer “é o tipo de coisa de que os Brown vão gostar”, por mais intrincada e interminável que seja a novela psicológica que ele possa compôr sobre os tons das diferenças entre o Seu Brown e a Dona Brown. Uma mulher vai dizer “eu não gosto que a minha filha frequente a casa dos Robinsons”, mas ela não vai sempre parar, no meio de suas exaustivas tarefas sociais ou domésticas, para dintinguir entre o materialismo otimista do Seu Robinson e o cinismo um tanto ou quanto mais ácido que permeia o hedonismo da Dona Robinson.

O interior de um lar tem uma cor própria, tão evidente quanto o exterior da casa. Esta cor é uma mistura, e se um tom prevalecer será geralmente o da mulher da casa. Mas, como todas as cores compostas, ela é uma cor à parte, tão distinta quanto o verde é distinto do azul e do amarelo. Todo casamento é uma espécie de equilíbrio dinâmico, e o acordo a que se chega, em cada caso, é tão único quanto qualquer excentricidade. Os filantropos que andam pelas favelas frequentemente percebem este acordo sendo feito aos brados, em plena rua, e acham que estão vendo uma briga. Quando metem o colher apanham do marido e da mulher, o que é bem feito, por não respeitarem a própria instituição que os trouxe ao mundo.

A primeira coisa a perceber é que esta normalidade gigantesca é como uma montanha, que pode ser até um vulcão. Todas as anormalidades que se lhe opõem são como o montinho de terra que marca a toca de uma toupeira, e os organizadores sociais, com toda a sua autenticidade, parecem-se cada vez mais com toupeiras.

Mas a montanha também é um vulcão em outro sentido, como o sugerido pela tradição dos campos fertilizados por lava, no Sul. Ele tem um lado criativo, bem como um lado destrutivo, e resta apenas, nesta parte da análise, notar o efeito político desta instituição extra-política, bem como os ideais que ela defendeu, frequentemente sozinha.

O ideal que ela defende em relação ao Estado é o da liberdade. Ela preserva a liberdade pela razão simples com que comecei este esboço de análise. É a única instituição que é ao mesmo tempo necessária e voluntária. É o único dos freios ao poder do Estado que se renova de modo tão eterno quanto o Estado e de modo mais natural que ele.

Qualquer homem são há de reconhecer que a liberdade ilimitada é anarquia, ou melhor, não é nada. A idéia cívica de liberdade é dar ao cidadão uma província em que ele é livre, um território circunscrito em que ele é rei.

Esta é a única maneira de a verdade se refugiar da perseguição pública e do homem bom sobreviver ao governo mau. Mas o homem bom, sozinho, não tem como enfrentar a cidade. Outra instituição deve servir de contrapeso à cidade, e neste sentido ela é uma instituição imortal.

Enquanto o Estado for a única instituição ideal ele irá conclamar o cidadão a sacrificar-se, e assim não terá escrúpulos em sacrificar o cidadão.

O estado consiste em coerção, e, no seu próprio ponto de vista, está sempre certo quando aumenta a coerção. É o caso, por exemplo, do serviço militar obrigatório. A única coisa que pode ser colocada para limitar ou desafiar esta autoridade é uma lei voluntária e uma lealdade voluntaria. Esta lealdade é a proteção da liberdade, na única esfera em que a liberdade pode verdadeiramente florescer. É um princípio constitucional que o Rei nunca morre. É o princípio único da família que o cidadão nunca morre. É necessário que haja uma heráldica e uma hereditariedade da liberdade, uma tradição de resistência à tirania. Os homens não devem apenas ser livres, mas nascer livres. Realmente, há algo na família que pode ser chamado até de anarquista, ainda que seja mais correto dizer ser algo amador. Assim como ela parece ser algo vaga acerca de sua origem voluntária, também parece haver algo vago acerca de sua organização voluntária. A função mais vital que ela desempenha, que talvez seja a função mais vital que qualquer um possa desempenhar, é a de educação; mas este tipo de educação fundamental é essencial demais para que se possa confundi-la com mera instrução.

Sua regra é mais prática que teórica, em milhares de aspectos. Para dar um exemplo banal, e até engraçado, duvido que algum livro-texto ou código de regras já tenha contido instruções sobre como botar uma criança de castigo no canto da parede. Certamente, quando o processo moderno se houver completado e o princípio coercitivo do Estado tenha extinguido completamente o elemento voluntário da família, haverá alguma restrição ou regulação estrita sobre isto. Possivelmente ela determinará que o canto onde a criança vai ficar de castigo deva ter um ângulo de pelo menos noventae cinco graus. Possivelmente, ela dirá que a linha de convergência de um canto comum tende a envesgar a criança.
De fato, tenho certeza de que se eu deixar escapar em um número suficiente de reuniões sociais que cantos de parede envesgam as crianças, isto rapidamente se tornará um dogmada ciência popular.

Afinal, o mundo moderno não aceita dogmas baseados em alguma autoridade, mas aceita de bom grado dogmas baseados em nenhuma autoridade. Se se diz que uma coisa é assim ou assado de acordo com o Papa ou a Bíblia, ela será desprezada como superstição sem ser examinada. Mas se, ao contrário, dissermos que “dizem que”, ou “você não sabia que”, tentando, sem sucesso, lembrar o nome de algum cientista citado num artigo de jornal, o racionalismo aguçado da mente moderna aceitará qualquer coisa que lhe seja dita.

Este parêntese não é tão irrelevante como parece, pois é necessário lembrar que quando um oficialismo rígido irrompe em meio às cessões voluntárias do lar ele será rígido apenas na ação, enquanto certamente será ao mesmo tempo excessivamente frouxo na razão. Intelectualmente, ele não será menos vago que os arranjos amadores do lar; a única diferença é que os arranjos domésticos são, no único sentido real, práticos, ou seja, são baseados nas experiências passadas.  Os outros arranjos são o que geralmente é dito científico, ou seja, são baseados em experiências que ainda não foram feitas. Na verdade, ao invés de invadir a família com a desastrada burocracia que desgoverna os nossos serviços públicos, seria muito mais filosófico fazer uma reforma no sentido oposto.

Seria certamente razoável alterar as leis da nação para que elas se pareçam com as do quarto de brinquedos. As punições seriam muito menos horríveis, muito mais divertidas, e serviriam muito melhor para fazer com que os homens percebam que fizeram papel de idiota. Seria uma diferença bem vinda se um juíz, ao invés de botar um chapéu preto, botasse um chapéu de burro, ou se pudéssemos botar um banqueiro de castigo olhando para o canto.

Esta opinião, é claro, é rara e reacionária, seja o que isto queira dizer. A educação moderna é baseada no princípio de que o pai ou a mãe têm mais chance de serem cruéis que qualquer outra pessoa. Ora, qualquer um pode ser cruel, mas as maiores chances de crueldade estão nas multidões indiferentes e sem cor dos completos estranhos e dos mercenários mecanicistas, que agora é moda chamar de agentes de melhoria: policiais, médicos, deteives, inspetores, instrutores,  etc.

A eles é dado poder arbitrário por existir aqui e ali um pai ou mãe criminosos, como se não houvesse médicos criminosos ou pedagogos criminosos. A mãe não toma sempre a melhor decisão sobre a dieta de seu filhinho, e eis que ela passa ao controle do Dr. Crippen. Pensa-se que um pai não ensina a seus filhos a mais pura moralidade, o que faz com que se os coloque sob a tutela de Eugene Aram.

Estes célebres criminosos não são mais raros em suas profissões respectivas que pais cruéis são na paternidade. Mas o caso é mais forte que isto, e não é sequer necessário apelar a estes criminosos.

As fraquezas normais da natureza humana explicarão todas as fraquezas da burocracia e dos governos do mundo todo. O oficial precisa apenas ser uma pessoa normal para ser mais indiferente em relação aos filhos dos outros que em relação aos seus próprios filhos, e até mesmo para sacrificar a prosperidade de outras famílias para avançar a da sua.

Ele pode estar entediado, ele pode ser subornado, ele pode ser brutal, por qualquer uma das mil razões que já fizeram um homem ser brutal.

Todo este senso comum elementar é completamente deixado de lado nos sistemas sociais e educacionais de hoje. Assume-se que o assalariado não irá abandonar seu trabalho, simplesmente por ele ser assalariado.

Nega-se que o pastor dará a vida por suas ovelhas, ou, já que estamos falando deste tipo de coisas, que a loba irá lutar para proteger seus filhoes. Querem que creiamos que as mães são desumanas, mas não que os oficiais são humanos. Que haja pais desnaturados, mas não paixões naturais. Ou, ao menos, que não haja nenhuma onde a fúria do Rei Lear ousou encontrá-las: no funcionário subalterno. Esta é a última descoberta brilhante para a educação das crianças, e o mesmo princípio que se aplica a elas é aplicado aos pais. Assim como ela assume que uma criança será certamente amada por todos, com a exceção de seu pai e sua mãe, ela assume que um homem pode ser feliz com qualquer pessoa, menos com a mulher que ele mesmo escolheu como esposa.

Assim o poder coercitivo do Estado prevalece sobre a promessa livre da família como oficialismo formalizado. Este, contudo, não é o mais coercitivo dentre os elementos coercitivos da comunidade moderna. Um poder externo ainda mais inescrupuloso e rígido é o do emprego e desemprego na indústria. Um inimigo ainda mais feroz da família é a fábrica. Entre estas coisas mecânicas modernas a instituição natural antiga não está sendo reformada, modificada ou mesmo podada: ela está sendo dilacerada. E ela não está sendo dilacerada no sentido de uma metáfora verdadeira, como a de um ser vivo preso em uma engrenagem medonha de uma máquina. Ela está sendo, literalmente, rasgada ao meio, como quando o marido vai para uma fábrica, a esposa para outra, e a  criança para uma terceira. Cada um deles se torna o servo de um grupo financeiro diferente, que cada vez mais ganha o poder político de um grupo feudal. Mas enquanto o feudalismo recebia a lealdade das famílias, os senhores do novo estado servil recebem apenas a lealdade de indivíduos, ou seja, de homens solitários e até mesmo de crianças perdidas.

Diz-se, por vezes, que o socialismo ataca a família, o que se baseia em pouco mais que no acidente de alguns socialistas apoiarem o amor livre. Eu já fui socialista, não sou mais, e em momento algum eu acreditei no amor livre. É verdade, acredito, que em um sentido amplo e inconsciente o socialismo de Estado encoraja a arrogância coercitiva de que venho tratando. Mas se é verdade que o socialismo ataque a família na teoria, é muito mais verdade que o capitalismo a ataca na prática.

É um paradoxo, mas um fato puro e simples, que as pessoas nunca reparam em algo se sua existência é prática. Homens que apontariam uma heresia calam-se diante de um abuso. Quem quer que duvide deste paradoxo deve imaginar os jornais imprimindo, do lado da Lista de Honrarias, uma lista de preços de baronatos e títulos de cavalheiro, ainda que todos saibam que eles são vendidos e comprados.

A fábrica está destruindo a família na prática, e não precisa depender de nenhum pobre teórico enlouquecido que sonhe em destruí-la na teoria. O que a destrói não é nada tão plausível quanto o amor livre, sim algo que poderia ser descrido como o medo forçado. É uma punição econômica, mais temível que a punição jurídica, o que ainda nos pode levar à escravidão como única segurança.

Desde seus primeiros dias na floresta, este agrupamento humano teve que lutar contra monstros selvagens, e agora está lutando contra máquinas selvagens. Ele só conseguiu sobreviver então, e só conseguirá sobreviver agora, através de uma forte santidade interna, um juramento tácito ou uma dedicação mais profunda que a da cidade ou da tribo. Mas ainda que esta promessa tenha sempre estado presente, em um dado momento pivotal da nossa história ela tomou uma forma especial, que tentarei esboçar no próximo capítulo. Este ponto pivotal foi a criação da Cristandade pela religião que a criou. Nada destruirá o triângulo sagrado, e até mesmo a Fé cristã, a mais espantosa revolução que já aconteceu nas mentes, serviu apenas, num certo sentido, para virar de cabeça para baixo este triângulo. Ela levantou um espelho místico em que a ordem das três coisas foi revertida, e acrescentou uma Sagrada Família, composta de filho, mãe e pai, à família humana composta de pai, mãe e filho.

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Nota do tradutor em seu blog:

Este é um trabalho em curso; antes de atingir sua forma final para publicação impressa, este texto ainda será cotejado novamente com o original, e a ele serão acrescentadas notas explicativas que facilitem sua compreensão pelo leitor atual.
Ele está sendo publicado aqui à medida que o trabalho progride, para possibilitar um acesso ao menos parcial dos leitores brasileiros a esta obra do grande escritor inglês.
Como esta versão é preliminar, pedimos sinceras desculpas por quaisquer enganos e agradecemos toda sugestão e auxílio que nos venham a ser prestados.

©Prof. Carlos Ramalhete – livre cópia na íntegra com menção do autor

Fonte: http://www.hsjonline.com/p/lingua-e-literatura.html

Cláudio Santos

3 comments for “A HISTÓRIA DA FAMÍLIA – Por Chesterton (tradução ©Prof. Carlos Ramalhete)

  1. Joselane Cruz
    23 de outubro de 2012 at 16:04

    Com a ganância e o desejo de dominar tudo q existe para q haja um bom capitalismo, querem destruir aquilo que vem de Deus e que não depende do capitalismo e de nenhum governo para a existência: O amor em família.

    • 24 de outubro de 2012 at 09:55

      Amiga Joselane,
      Se faz necessário apenas uma reflexão para não sermos induzidos errôneamente ao socialismo.
      Afinal precisamos da economia para sobrevivência, assim qual o modelo econômico mais coerente com a doutrina social da Igreja Católica? O socialismo? O Capitalismo?
      Três direitos básicos e nesta ordem: Vida, Faculdade e Propriedade, considero eu, seria o mais ético.
      O tema é tão delicado que aí está em parte a ruína de parte da Igreja, quando parte para o marxismo e cria a Teologia da Libertação, por causa do pensamento anti-capitalista.
      O assunto é delicado e precisa de uma reflexão apurada, mas adianto que Deus nos criou para a vivermos, logo o primeiro e maior direito é a vida, por este motivo lutarmos tanto contra a cultura da morte.
      Com a vida, diferentemente das outras criaturas, Deus nos deu a inteligência, assim nossa faculdade intelectiva necessita de liberdade para se expressar, por este motivo nunca devemos “forçar” alguém a acreditar no que cremos mas sim, “conduzir” os outros para a mesma iluminação.
      Com a vida e a faculdade, precisamos comer, formar família e ter um lar, ou seja, temos que trabalhar para ter o direito de propriedade, e contribuir com a sociedade, inclusive com os mais fracos pela solidariedade.
      “De nada vale o capital sem o trabalho, nem o trabalho sem o capital” (Rerum novarum, 11). …”é inteiramente falso atribuir ou só ao capital ou só ao trabalho o produto do concurso de ambos; e é deveras injusto que um deles, negando a eficácia do outro, se arrogue a si todos os frutos.” (Pio XI in Quadragesimo anno, 195).

      Em suma, o texto fora escrito no início do século passado, seu autor vivia uma realidade trágica nas fábricas inglesas, e que graças à luta social foi sendo melhorada. Hoje o número de empregos insalúbres e perigosos foram reduzidos a casos extremos. Se Chesterton estivesse vivo hoje provavelmente relataria os erros bizarros do pensamento socialista e neo-liberal, das injustas espoliações para permitir o assistencialismo estatal, e das injustiças da globalização e do tempo perdido em empresas e escritórios para aumentar o padrão de vida, que inclusive rechaça o nascimento de novas vidas.
      tá aí, é para pensarmos mesmo, obrigado pela colaboração!

  2. Irmã Priscila
    17 de outubro de 2012 at 11:15

    Por isso, “o homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa e serão os dois uma só carne.” Desse modo, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu! (mt 19,5-6)

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