Ciência e Interesses

Reprodução

Quando o cidadão comum lida com a pesquisa científica, seja assistindo um programa de domingo na televisão ou lendo reportagens em revistas semanais, quase sempre compreende por “ciência” um conjunto de conteúdos epistêmicos, o qual garante a validade desse grupo de conhecimentos em relação a opiniões pessoais e conteúdos não comprovados. Seja na reflexão, seja na produção de ciência, aqueles que não são cientistas esperam que haja um princípio anterior e que norteie tanto a pesquisa quanto a produção da ciência: a noção de desinteresse. É desejável que o cientista não tenha outra meta na busca do conhecimento que a verdade. Ele não pode estar comprometido com empresas ou ideologias que direcionem o resultado de suas pesquisas. No entanto, isso quase nunca acontece. O recente escândalo do “Climategate” entre universidades americanas e inglesas é um exemplo do modo como a ciência acontece realmente, sem romantismos.

O “Climategate” (referência clara ao caso Watergate, nos Estados Unidos dos anos 1970) foi um escândalo, acontecido em 2009, no qual um grupo de cientistas do tempo modificou resultados de pesquisas climáticas a fim de pressionar governos em favor de ações políticas determinadas. Um dos cientistas responsável por esta estratégia, Michael E. Mann, da Universidade da Pensilvânia, recentemente foi inocentado (pelos seus pares, é claro). No entanto, a divulgação desta manobra deixou resultados na comunidade acadêmica mundial e, especialmente, em áreas interessadas no assunto, como as petrolíferas.

Não importa saber se os dados realmente foram modificados para alarmar países e fazê-los reduzir a produção de bens de consumo –  o que seria uma arma considerável contra essas nações. O que se esse caso revela é que não existe produção científica indiferente politicamente.  Se interesses políticos interferem na produção e divulgação científica sobre clima, o que se faz com respeito a temas mais complexos?


Mais sobre o tema:

http://en.wikipedia.org/wiki/Climagate

Congress, Climategate and science

Why Climategate is so distressing to scientists

Climategate: A Battlefield Perspective

COADY, C. A. J. Testimony: A Philosophical Study. Oxford, Clarendon Press. 2002.

DATTA, Dhirendon Mohon. Testimony as a Method of Knowledge. In: Mind, vol. 36, no. 143, 1927, pp. 354-358.

KUSCH, Martin; LIPTON, Peter. Testimony: a primer. In: Studies in History and Philosophy of Science, vol. 33, 2002.
Robson Oliveira

2 comments for “Ciência e Interesses

  1. Cris
    11 de novembro de 2011 at 23:17

    Pois é, uma vez um teólogo e educador (esqueci agora seu nome) foi questionado (sabatinado), numa roda de entrevista com alguns jornalistas na Band, sobre a religião poder ser um instrumento de controle. Ele respondeu que religião não era coisa de tolo, que o tolo na religião o seria em outras coisas tb, daí, igualmente à religião, a política, a arte, o jornalismo (nesse ele provocou, hehe..) e a ciência, entre outros, tb poderiam servir de instrumentos para manipular as pessoas.
    +1

  2. Fabiano
    7 de agosto de 2010 at 12:34

    Pois é, uma vez um teólogo e educador (esqueci agora seu nome) foi questionado (sabatinado), numa roda de entrevista com alguns jornalistas na Band, sobre a religião poder ser um instrumento de controle. Ele respondeu que religião não era coisa de tolo, que o tolo na religião o seria em outras coisas tb, daí, igualmente à religião, a política, a arte, o jornalismo (nesse ele provocou, hehe..) e a ciência, entre outros, tb poderiam servir de instrumentos para manipular as pessoas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *