Homilia do Papa Francisco aos seminarista do Rio de Janeiro

A homilia do Papa Francisco, que vai transcrita na íntegra abaixo, foi realizada em Santa Missa privada com os seminaristas do Seminário São José, do Rio de Janeiro, durante a Jornada Mundial da Juventude. Como se pode perceber, o texto tem algumas dificuldades com coesão. Não tivemos acesso ao áudio da homilia do Papa ainda, por isso publicamos essa transcrição com o cuidado de ler a mensagem com olhos atentos e caridosos com aqueles que fizeram o favor de disponibilizar o conteúdo.

Destaco a recomendação que o Papa Francisco fez aos seminaristas, mas que certamente servirá a todos os cristãos: “Adorar… Diante dEle adorar…”. Como ele disse algumas vezes nessa homilia, essa é uma pedra de toque interessante para julgar a vida de cada fiel sobre o seguimento de Nosso Senhor.


O mistério da encarnação não tinha palavras, fazia o que estava a seu alcance e tinha de ir desarmando todos os aparatos ideológicos com o que não se explicava bem este grande mistério.

Tinha que lutar contra as correntes mais gnósticas que vinha dos essênios ou contra o pelagianismo nominalista da corrente fariseu-ortodoxa e não sabia como. Mas ele sempre se movimentava entre duas coisas: a grandeza de Jesus Cristo, que chama meu Senhor e a pequenez nossa – daqueles quem Ele elegeu para anunciar o Evangelho. E aí… Nesta tensão vai explicando, não se pode explicar… Ele ia anunciando o mistério da encarnação do Verbo.

E hoje aparece na primeira leitura uma expressão muito típica dele. É como uma conclusão da sua reflexão: “trazemos este tesouro em vasos de barro”. Ou seja, um tesouro, a revelação de Deus em Jesus Cristo, um mistério que trata de aproximar-se o máximo possível. E essa revelação se volta, é contida em algo muito frágil, muito débil, até muito deixado de lado, um vaso de barro comum, que se quebrar não há problema, pegamos outro e seguimos adiante.

Esta tensão entre a grandeza do presente, do dom, e da baixeza de quem o recebe, é um dos caminhos que encontra Paulo para anunciar o mistério da encarnação do Verbo. Quando a noite eu lia as leituras falei, que bom!, pois hoje vamos ter tantos homens que querem seguir a Cristo e se preparam para o sacerdócio, tantas irmãs que consagraram suas vidas a Jesus Cristo e tantos bispos que também Deus colocou para acompanhar o povo de Deus e para todos nós consagrados, religiosos, sacerdotes, os bispos, este é um denominador comum, temos recebido um presente e todos somos vasos de barro.

O problema é como levar adiante esta tensão, sempre se desequilibra. Ao longo da história da Igreja aparecem homens e mulheres que recebem o dom, sabem que são de barro, mas ao longo da vida se entusiasmam de tal maneira que se esquecem que são de barro ou esquecem que o dom é um grande dom. Então se desequilibra esta tensão que nos faz muito bem. Paulo disse que somente pode gloriar-se em duas coisas: “em meu pecado”, diz, “é o único de que posso me gloriar”. Gloria-se porque os menciona, “antes eu perseguia a Igreja”, mostra sua carteirinha de identidade e em Jesus Cristo.

Eu proponho uma pergunta a todos que estão aqui: nos gloriamos dos nossos pecados? No bom sentido da palavra… Lembramo-nos que somos de barro? A tentação está em disfarçar o vaso de barro, pintá-lo, colocá-lo lindo… Então vamos nos enganando… E vamos acreditando que já não somos de barro. Sou de uma maior categoria (risos).

Então colocamos a esperança no vaso de maior categoria e nos esquecemos de colocá-la no dom. Cuidado! Foi isso que passou com Tiago e João. Seguramente falaram com a mãe e como toda mãe foi pedir que a metade do bolo fosse  para seus filhos (risos). Quando venha a partilha, que a metade seja para este e a outra metade para o outro.

Entraram neste jogo mundano… de esquecermos que somos de barro. E querer ter um certo prestígio, uma certa autoridade no grupo dos doze. Discutiam quem era o maior. E Jesus os freia: “Entre vocês não é assim”. O servo que serve. A Igreja sofreu muito e sofre muito cada vez que um dos chamados a receber o tesouro em vasos de barro, armazena o tesouro e se dedica a mudar a natureza de barro. E crê que é melhor… Que já não é de barro. Somos de barro até o final, disto não se salva ninguém. Jesus nos salva de sua maneira, mas não dá maneira humana de prestígio, de aparentar, de ter posto de relevância. Assim nasce o carreirismo na Igreja, que faz tanto dano.

Os chefes das nações, disse Jesus, dominam seus povos, a seus povos somente, manda neles… “Entre vocês não deve ser assim. Vocês são servidores”! São para servir… Vasos de barro, grandeza de Jesus. Alguém pode perguntar: como sei que estou num caminho perigoso, quiçá não creio que sou tão de barro? E segunda pergunta: como sei se o que Jesus me deu é um presente muito grande? Eu o sigo mantendo como dom? São duas coisas que são pedra de toque para isso.

Duas coisas: primeiro, para ser barro, a primeira pergunta, como sei que sigo sendo de barro? Como você se confessa? Há muitas maneiras de se confessar. Confessas intelectualizando teu “negócio”? “Em geral”? Confessas trocando de confessor quando há algum pecado que…? Que parece que pode te dar vergonha? Aí já esqueceu que é de barro… Ou se confessa bem? “Aqui estou, Senhor: isso, isso…”. A confissão tem isso de bom… Coloca-nos perante a verdade, mas vista por nós mesmos. Sou de barro por isso, por isso e por isso, concreto! A encarnação do verbo é concreta. Sim! Então, como saber que sigo sendo de barro? Pergunta-te: como te confessas? Aí vai saber se tem consciência de que é de barro ou se já começou a pintar o vaso para que pareça outra coisa.

E como sei que o grande presente é Jesus? Por que faço apostolado ou por que fiz isso? Sim, pode ser, mas tudo isso pode enganar. Adoras? Sabes adorar a Jesus? Ou lhe pedis coisa, lhE agradeces? Mas vais adorar Jesus? Oração de adoração é a “pedra de toque” para saber que, todavia cremos que Jesus é este grande presente. Adorar… Diante dEle adorar…

Tomara que nos sirvam estas duas questões, não é? O jeito como nos confessamos vai nos indicar se temos consciência de ser de barro. E como adoramos, se adoramos na oração, vai nos dizer se temos consciência de que este é um grande dom e um grande presente.

E bom, peço a Virgem que custodie em todos nós estas duas coisas. Peço-lhe que transforme o barro em metal? Não, não… Que seja barro até o final… Mas que saibamos que é barro e lhE peço que nos dê a graça de adorar a Jesus. Que assim seja!

Bento e Francisco: Espiritualidade e Continuidade

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1 comment for “Homilia do Papa Francisco aos seminarista do Rio de Janeiro

  1. leila andrade
    7 de setembro de 2013 at 05:09

    É tão bom termos um chefe da igreja que com simplicidade e humildade,nos ensina e nos revela o que é de fato realmente ser cristão.Essa reflexão sobre o adorar a Jesus e o como confessar é estarmos sempre atentos com as nossas atitudes e deveres como cristaõ.É sabermos fazer uma autocritica da nossa caminhada como cristão.
    Obrigada Senhor, por nos ter dado uma pessoa tão especial como o Papa Francisco!Amém!!

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