Última semana do Pontificado de Bento XVI – I

 Restam quatro dias para o Trono de Pedro quedar vazio. Quando o papa Bento XVI, no dia 28 de fevereiro, entregar sua carta de renúncia, o bilhão e meio de católicos no mundo estará de joelhos, agradecendo por Deus enviar um homem tão nobre em hora tão escura; e suplicando pelo próximo papa, que chegará.

O Pe. Anderson Alves, de Petrópolis, escreveu uma boa reflexão sobre os estilos de papado, de Bento XVI e de João Paulo II. A fonte original do texto está aqui.


João Paulo II e de Bento XVI: a via da expiação e da oração

A Quaresma é para os cristãos um tempo de preparação para a festa da Páscoa. Durante esse período nos lembramos os 40 anos que Israel passou no deserto, os 40 dias de jejum, oração e penitência do Senhor antes de começar o seu ministério público. O deserto é um forte imagem bíblica: é o lugar do silêncio, da pobreza, do encontro com Deus; para atravessá-lo, é necessário descobrir e levar só o que é essencial para a vida. O deserto é também um lugar de solidão, de morte, no qual a tentação é sentida com mais força. É ainda um retrato do mundo atual, no qual as pessoas se tornaram áridas, sem coração, por causa do abandono da fé no verdadeiro Deus.

 

No deserto, Jesus é tentado pelo diabo três vezes. Todas as tentações são reduzidas ao querer colocar-se no centro de tudo, no lugar de Deus, removendo-o da própria existência ou tentando submetê-lo à nossa vontade. Todas as tentações são, pois, contra a fé, uma ameaça à confiança no verdadeiro Deus.

 

Para vencer as tentações é necessário colocar a Deus no centro das nossas vidas. E isto é a conversão que a Quaresma nos propõe. Essa se realiza quando analisamos a própria vida diante de Deus, buscando conhecer quem realmente somos, quais são nossas capacidades e limitações, perguntando-lhe sinceramente: o que queres de mim, Senhor? Isto não é fácil, porque muitas vezes não temos tempo para Deus, ou não queremos ouvir a sua voz. A tentação de nos colocar no centro de tudo é sempre muito forte.

 

 

Somos chamados na Quaresma a colocar nossas vidas diante de Deus com humildade. E é isso que o Papa Bento XVI fez: analisar repetidamente a sua consciência diante de Deus (conscientia mea iterum atque iterum coram Deo explorata, disse o Papa com uma linguagem agostiniana), perguntando-lhe com total disponibilidade: o que queres de mim? E o Senhor respondeu-lhe, de modo que o Papa chegou à certeza (ad cognitionem certam perveni) do que Deus lhe pedia. E Bento XVI respondeu generosamente, renunciando ao seu ministério para o bem da Igreja, a fim de que outro homem com mais força física do que ele possa continuar conduzindo a Igreja, que é de Cristo, no caminho da Nova Evangelização do deserto que se tornou nosso mundo.

 

 

O Papa fez assim um gesto surpreendente, porque foi um ato de fé e de humildade, e infelizmente não sabemos mais o que é viver de fé e o que seja a humildade. Hoje estamos sempre dispostos a julgar, porque não temos a coragem de analisar nossas vidas diante de Deus, como o Papa fez. É mais fácil refugiar-se em juízos superficiais. Neste período de conversão, devemos nos lembrar de que só Deus é onisciente, somente Ele pode julgar as intenções das pessoas, e por isso devemos ter muito respeito para com a consciência dos outros.

 

O Papa João Paulo II ao seu tempo analisou a sua vida diante de Deus que lhe pediu de viver os últimos anos de seu ministério como uma forma de expiação pelos nossos pecados; e a Bento XVI, Deus pede uma vida dedicada inteiramente à oração. Quem somos nós para julgá-los? Estes dois homens, provavelmente os dois melhores papas de história da Igreja moderna, tiveram a coragem de colocar-se diante de Deus, que lhes indicou o caminho da reconciliação e da oração. E essas duas coisas, a expiação e a oração, são as coisas essenciais da vida sacerdotal. E esses grandes homens de Deus a propõem a todos os sacerdotes. Quem somos nós para condená-los?

 

Além disso, eles ensinam a todos os cristãos a ter ousadia para entrar no deserto da intimidade com Deus, buscando seriamente a conversão, que inicia com o confronto da própria vida com a vontade de Deus. Isso nos faz reconhecer nossas capacidades e o que Ele realmente quer de nós. Portanto, devemos ter muita alegria e agradecer a Deus por esses homens que sempre serviram ao Senhor com generosidade e total dedicação.

 

E não devemos ser enganados por falsos profetas do mundo atual. Aqueles que agora criticam o Papa Bento XVI, por ser ancião e ter renunciado são os mesmos que criticaram João Paulo II por ser ancião e não ter renunciado. Os que se esquecem de Deus, estão sempre preparados para apedrejar ao seu próximo, mesmo com acusações contraditórias contra quem não fez cometeu nenhum pecado. Na história da Igreja há Papas santos que não renunciaram ao seu ministério e também um Papa santo (Celestino V) que renunciou ao mesmo.

 

 

Os cristãos que buscam a verdadeira conversão agradecem a Deus pelos ministérios brilhantes e complementares de João Paulo II e Bento XVI, que tiveram a humildade, a fé e a coragem de seguir a própria consciência, analisada à luz de Deus; e agora rezam por Bento XVI, mostrando-lhe muito amor e agradecendo a Deus pelo bem que ele fez pela Igreja e pelo mundo durante todos estes anos. Papa Bento XVI sempre ensinou que a Igreja é uma grande família, a família dos filhos de Deus em caminho.

 

E qual o filho que, tendo um pai com 86 anos, que acabou de passar por uma cirurgia cardíaca, o crítica por não poder mais trabalhar?

 

 

Peçamos ao Senhor que nos ajude a ser verdadeiros cristãos, que saibam amar uns aos outros como Jesus nos amou, nunca colocando-nos no lugar de Deus, julgando ou criticando quem sempre foi um pai exemplar e dedicado.

 

Pe. Anderson Alves é da Diocese de Petrópolis, Brasil
Robson Oliveira

2 comments for “Última semana do Pontificado de Bento XVI – I

  1. 25 de Fevereiro de 2013 at 13:54

    Esta reflexão do Pe Andreson, me fez refletir ainda mais no gesto de coragem e fé do nosso amado Papa Bento XVI.

    Todos hão de convir que o Papa sempre enfrentou com coragem, determinação e amor a todas as mazelas que se lhe apresentaram. Logo, a atitude mundana esperada é que ele se mantivesse no “cargo” com medo que alguem despreparado assumisse o lugar dele. Mas não, ouvindo ao apelo/Vontade de Deus ele se colocou a disposição para servir da melhor forma!

    Temos de trabalhar e confiar na providência Divina!

    Deus abençoe
    Pax et Bonum!
    Philipe Lucas

  2. 25 de Fevereiro de 2013 at 07:40

    Obrigado pela divulgação. Fiquei surpreso hoje ao ver que Dom Bruno Forte, um dos maiores teólogos da atualidade, escreveu um artigo semelhante ao meu (e escreveu depois de mim). Evidentemente é mais teológico e fundamentado, mas as ideias são semelhantes Vejam e confiram. Eu falo de “via da expiação e da oração” para falar do ministéiro dos 2 Papas; ele fala da “mistíca da Cruz e do serviço”.

    http://www.zenit.org/it/articles/la-mistica-della-croce-e-la-mistica-del-servizio

    O meu artigo tinha sido publicado em italiano no dia 22/02. O dele é de 24/02.
    http://www.zenit.org/it/articles/giovanni-paolo-ii-e-benedetto-xvi-la-via-dell-espiazione-e-della-preghiera

    Um abraço a todos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *