O que o verdadeiro catolicismo pensa sobre a homossexualidade – Pe. Matheus Pigozzo

Mais um texto do Pe. Matheus Pigozzo. Ele oferece-nos uma reflexão sobre o lugar da homossexualidade na doutrina. Precioso e preciso, como sempre!


O que o verdadeiro catolicismo pensa sobre a homossexualidade

Antes de qualquer coisa é necessário dizer, com toda sinceridade, que este artigo não tem a intenção de ferir ninguém, nem debater sobre o tema. O presente texto visa expor, de um modo acessível, o que o catolicismo pensa sobre o assunto, a fim de ajudar qualquer pessoa a compreender o que o pensamento católico sustenta sobre a homossexualidade, não necessariamente para que concorde, mas ao menos saiba o que realmente pensa a doutrina católica.

Primeiramente, o pensamento católico, ao observar a natureza com os olhos da razão, enxerga que naturalmente cada órgão humano tem sua função e finalidade. A anatomia do ser humano, no grau mais elementar possível: macho – fêmea, demonstra que os órgãos ligados à sexualidade são feitos para se complementarem. Seu uso natural traz unidade dos diferentes corpos (homem e mulher) e a possibilidade de reprodução, mostrando para que existem. Sendo assim, o católico entende que por leis da natureza, leis estas que fogem ao arbítrio humano, a sexualidade tem um curso e sentido próprios que o homem não pode usar de modo diferente sem ser contrário a esse ditame natural. Portanto, no sentido mais básico, olhando de modo racional para a natureza humana, os sentimentos e ações que motivam os órgãos sexuais, para serem honestos com a finalidade e sentido deles – unidade complementar dos diferentes e livre curso à reprodução – devem ser destinados ao sexo oposto. Se não, seria utilizar os órgãos sexuais de modo contrário ao sentido inscrito na própria natureza.

O pensamento católico, ao reconhecer Deus como Criador, crê que Ele criou a natureza humana e ordenou tudo segundo o que Ele determinou como quer que exista. Portanto, a princípio, desordenar ou desconsiderar a verdade natural e sentido das funções biológicas é impor um comportamento e intenção diferentes do determinado pela sabedoria divina.

Até agora o pensamento católico exposto se baseou segundo a lei natural, partindo da observação da própria natureza. Porém, no que se refere ao tema proposto neste artigo, existe o que a teologia católica chama de lei divina positiva. Ou seja, além de uma observação natural e dedução, existe uma lei estabelecida por Deus que proíbe o uso da sexualidade de modo contrário à natureza.

Um católico crê que Deus se revelou ao homem, mostrou seu amor e seu caminho de salvação. Por ter criado o homem à sua imagem e semelhança, o criou livre e só é possível ama-lO quando se escolhe livremente o bem e a verdade. Como o homem, por ser pequeno, não poderia reconhecer a estrada sozinho, Deus se mostrou a ele; isso o católico crê que fez pela Sagrada Escritura e pela Tradição oral (ensinamento recebido dos apóstolos de Cristo e transmitido). Tanto os livros bíblicos como o ensino recebido dos apóstolos são inspirados por Deus, por isso são regras de fé, vindas do próprio Senhor. Assim como o católico crê que Deus mandou amar o próximo e, por exemplo, viver o desapego material, também crê, pois é a mesma fonte, que condenou o pecado e deu mandamentos concretos para serem observados.

Então veja, para um católico, além da observação natural e da lógica creacional, é dado de fé revelado por Deus que práticas homossexuais são contrárias ao que Deus estabeleceu como aceitável e condizente com a natureza e moralidade humana.

Na Sagrada Escritura, além da clara distinção e complementariedade querida por Deus no relato da criação – “homem e mulher os criou” (Gn 1,27); “o homem deixará seu pai e mãe e se unirá à sua mulher” (Gn 2,24); “sede fecundos” (Gn 1,28) – existem proibições claras de práticas homossexuais – “Não te deitarás com um homem como se fosse uma mulher: isso é uma abominação.” (Lv 18,22). O famoso caso de Sodoma, que é descrito como um grande pecado diante de Deus (Cf Gn 19) etc…

No entanto, se torna mais clara para o pensamento católico a lei positiva de Deus em relação a esse assunto, quando essas condenações vêm do Novo Testamento, pois esse está contextualizado na plenitude da revelação divina. O próprio Jesus ao falar sobre o casamento reafirma o relato da criação – “o homem deixará sua mãe e se unirá à sua mulher” (Mt 19,5). São Paulo traz com exatidão a doutrina cristã confirmando o que Deus estabeleceu no Antigo Testamento e elucidando o ensinamento que os apóstolos receberam, um dos textos sagrados diz: “…mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente. or isso Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza. E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro.” (Romanos 1,25-27).

No testemunho dos chamados “Padres da Igreja”, os primeiros pastores cristãos, enraizados na doutrina que os apóstolos receberam de Jesus, vemos a condenação expressa do que denominam “pecado de sodomia”. Dentre os mestres da patrística estão S. Justino, S. Irineu, S. João Crisóstomo e S. Agostinho.

O pensamento católico, portanto, vê a prática da homossexualidade como imoral, pois entende que é um comportamento contrário à ordem da natureza, ordem essa que foi estabelecida pelo Criador; ajunta-se a essa tese, o que dá mais peso ao posicionamento, o fato de estar na Sagrada Escritura, nos dois Testamentos, a clara proibição divina sobre tal prática e no ensino da Tradição apostólica. Sendo assim, o católico crê que, pela reta razão e pela fé, a prática da homossexualidade é algo não previsto na natureza e não conforme a moral estabelecida por Deus.

O Catecismo da Igreja Católica reconhece que “um número considerável” de pessoas trazem tendências homossexuais (Cf. n 2358). E, de fato, se constata que existem casos em que a tendência surge de traumas e marcas vividas; outros que partem da má formação da consciência – quando, numa idade de maturação psicológica, colocam erros como se fossem normais, sejam as escolas, os amigos, a TV etc. Apesar disso, o Catecismo diz que a gênese psíquica da homossexualidade “continua em grande parte por se explicar” (Cf. n. 2357). O Mesmo catecismo ensina que essa tendência desordenada não é um pecado e que as pessoas que a possuem estão chamadas, como todos os outros cristãos, à santidade e, através de uma vida de castidade, podem viver a perfeição cristã. Devem ser acolhidas “com respeito, compaixão e delicadeza” (Cf. n. 2358).

Ora, o pensamento católico entende que, como um homem casado que tem tendência ou sentimentos a olhar para outras mulheres ou a querer uma relação indigna com a esposa; ou uma pessoa que tem tendência a mentir ou a roubar; ou aquele que tende à embriaguez deve não seguir seu sentimento ou impulso por ser contrário ao que a fé e a justa razão determinam, o homossexual, assim como os outros, deve lutar para adquirir autodomínio e ajustar o que sente e deseja fazer, com a verdade das coisas e a revelação divina.

De acordo com tudo o que foi até agora exposto, entende-se que um católico coerente não pode aprovar o comportamento homossexual sem negar a lógica da ordem natural e sem abrir mão da verdade da revelação de Deus. No que se refere à revelação divina, peguemos, para exemplificar, o mistério da presença real de Jesus na Eucaristia. Um católico crê que Jesus está presente na hóstia consagrada porque na Sagrada Escritura e na Tradição se encontra o relato de que Jesus disse aos apóstolos “isto é o meu corpo (…) fazei isto em memória de mim”. E assim a fé neste mistério existe, pois se crê que as Escrituras e a Tradição são inspiradas por Deus e dizem a verdade que vem dEle. Portanto, não haveria coerência lógica se o pensamento católico cresse em trechos da Revelação e não cresse em outros da mesma fonte.

O pensamento católico entende que a pessoa com tendência homossexual deve, como todos, ser acolhida e receber apoio fraterno e espiritual para buscar ordenar seus pensamentos, sentimentos e comportamentos de acordo com à natureza e à fé, assim como todas as outras pessoas. Ou seja, se se dispõem a isso, estão no caminho de santificação como qualquer outro batizado que busca a comunhão com Deus.

O pensamento católico, por reconhecer que a verdade da sexualidade humana é algo natural, entende que todo o ser humano deve reconhecê-la, por bastarem critérios racionais. Dessa forma, vê como um assunto não necessariamente religioso, mas humano. O católico tenta promover a conscientização deste tema, pois sabe que se o ser humano se volta contra sua própria natureza acaba por não desenvolver sua plenitude e até por se destruir. No entanto, compreende que todos têm livre arbítrio e que cada ser humano tem direito a tomar decisões e escolher caminhos, porém, neste caso, é preciso ter a consciência de que escolhe algo não conforme à natureza e não condizente com o que Deus revelou ao homem. Por isso, o pensamento católico entende como não sendo justo que pessoas com ações homossexuais recebam o reconhecimento de tais práticas como sendo estruturas naturais e familiares e nem que exijam da Igreja os sacramentos enquanto persistirem neste modo de viver.

É contrária à doutrina de Jesus tanto a falta de caridade e violência, como a omissão da verdade. Assim como Ele levanta a pecadora arrependida, a acolhendo, diz igualmente à ela – “não volte mais a pecar” e condena veementemente a persistência dos fariseus na dureza de coração.

A caridade na verdade é sempre um desafio, mas é só assim que há um reto amor. No entanto, o primeiro ponto é saber expor os pensamentos com clareza e paz para que haja diálogo respeitoso. Espero que estas linhas tenham esclarecido um pouco mais o posicionamento católico sobre o tema.

Pe. Matheus Pigozzo

Robson Oliveira

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